Infertilidade - Artigo de Revisão
Fatores comportamentais e ambientais que interferem com a fertilidade.
Maria Cecília Erthal
Coordenadora do Serviço de Ginecologia, Obstetrícia eReprodução Humana do Hospital Barra D'OR
Introdução:
A cada dia, um número maior de casais procura assistência médica, devido à dificuldade para obter gravidez. Em países desenvolvidos estima-se que 15% dos casais vão apresentar infertilidade em algum momento das suas vidas reprodutivas. Por vezes, o profissional da área de saúde é consultado sobre a influencia do estilo de vida sobre a fertilidade, como por exemplo, o adiamento da gestação, ou a exposição a alguns fatores ambientais. O objetivo desse artigo é analisar variáveis comportamentais e de meio ambiente que podem interferir no processo natural da fertilização.
O impacto da idade sobre a fertilidade.
Nos dias atuais, a mulher representa uma parcela importante no mercado de trabalho mundial, em muito colaborando com a economia doméstica e com um interesse especial pela formação profissional. Por esses motivos, existe uma tendência a um adiamento nos planos de constituição da prole por parte do casal, e como conseqüência mais mulheres tentam a gravidez no final da terceira e início da quarta décadas de vida. Nos EUA 20 % das mulheres tem sua primeira gestação após os trinta e cinco anos¹. Um estudo clássico realizado por Tietze² demonstra uma queda gradual na fertilidade a partir dos 25 anos, estimando que a probabilidade de obter gestação diminui 3 a 5 % ao ano após a terceira década de vida, e esse percentual aumenta a partir da quarta década. É importante também mencionar que a chance de ocorrer um abortamento espontâneo é de 12 a 15% aos vinte anos e passa para 50% após os quarenta anos¹. Esses fatos são explicados pela presença de uma quantidade geneticamente limitada de células germinativas no ovário. Durante a vida intra-uterina um total de 6 a 8 milhões de células germinativas existe no ovário, e à medida que o tempo passa sofrem atresia, processo esse que envolve fenômenos de apoptose, de forma que na puberdade existem cerca de 300.000 oócitos no interior do ovário. A cada ciclo menstrual um percentual de folículos primordiais é recrutado e inicia-se o processo de crescimento, desses apenas um torna-se dominante. Os folículos restantes são perdidos e sofrem atresia, promovendo dessa forma uma depleção de um "pool" limitado de gametas. Esse processo tem continuidade ao longo da vida, culminando com a menopausa, que representa o marco do fim da vida reprodutiva da mulher. O declínio da "performance" reprodutiva na mulher referente ao avanço da idade, não é somente devido à diminuição numérica dos gametas, a concomitante deterioração na qualidade dos oócitos acompanha o envelhecimento¹. Altas taxas de cromossomopatias e aneuploidias¹ tem sido descritas nos oócitos de mulheres com idade avançada, o que explica não só a dificuldade em engravidar como o aumento na taxa de abortamento espontâneos nessa faixa etária.
O período de vida reprodutiva no homem é menos claramente definido quando comparado à mulher. Em contrate com o repertório limitado de células germinativas observado nas mulheres, os gametas masculinos caracterizam-se por uma contínua atividade mitótica e aumento do "pool" ao longo da vida.Apesar da evidência do declínio da fecundidade com o envelhecimento do homem os resultados finais em relação à obtenção de gravidez não são afetados pela idade do parceiro. De forma semelhante ao que ocorre na mulher, existe uma tendência ao aumento de aneuploidias no esperma, relacionado ao envelhecimento do homem. É documentada a associação de aneuploidias dos cromossomos sexuais fetais (síndrome de Klinefelter e síndrome de Turner) com idade avançada paterna¹.
Riscos do hábito de fumar para a saúde reprodutiva
No Brasil 20% das mulheres são fumantes, e dessas 30% estão em idade reprodutiva. Além dos riscos para a saúde em geral, causados pelo hábito de fumar tais como; doenças respiratórias, câncer de pulmão, cardiopatias e complicações na gravidez, a nicotina traz riscos específicos para a mulher no que diz respeito à infertilidade (22%), osteoporose(30%), menopausa precoce(17%), abortos espontâneos(39%), gravidez ectópica(27%)e câncer cervical(24%). O hábito de fumar aumenta os riscos de complicações na gravidez, aumenta a ocorrência de neomorto e baixo peso ao nascimento³. O cigarro é considerado uma toxina para o aparelho reprodutivo.
Na mulher:
- Diminuí a reserva ovariana
- Diminui a taxa de implantação do óvulo no endométrio
- Alteração na produção estrogênica com prejuízo para o desenvolvimento folicular.
- Aumenta o risco de aneuploidias³;
No homem:
- Redução da espermatogênese
- Alterações morfológicas nos espermatozóides
- Redução de 13% na motilidade dos espermatozóides
- Leva ao stress oxidativo com redução do potencial de fertilização do espermatozóide.
Ricos do consumo de álcool para a saúde reprodutiva
O consumo de álcool pelas mulheres está associado com um aumento na infertilidade de causa anovulatória e devido à endometriose23. O uso de cinco doses diárias de álcool reduz em 40% a chance de gravidez 4 ;
Na mulher:
- Leva a irregularidade do ciclo menstrual
- Diminui o número de oócitos
- Aumenta o risco de aborto espontâneo
No homem:
- Diminui os níveis de testosterona sérica
- Diminui a quantidade de espermatozóides.
- Inibe a capacidade ejaculatória por ação direta no centro do reflexo espinhal
- Impotência sexual nos casos de alcoolismo crônico.
Influência do índice de massa corporal na fertilidade
Alguns estudos demonstram o impacto sobre a fertilidade do excesso ou da diminuição excessiva da massa corporal. IMC > 27 kg \ m2 ou < 17 kg\ m2 estão associados com infertilidade anovulatória, provavelmente devido a alterações da secreção do hormônio hipotalâmico liberador de gonadotrofinas, alterações nas secreções do FSH e LH hipofisários, levando a anovulação, que pode estar associada à síndrome dos ovários policisticos. Em pacientes obesas a fertilidade encontra-se reduzida em 50% 5 . Uma perda de peso entre 10 a 15 kg aumenta consideravelmente as chances de gravidez na paciente obesa.
Drogas Gonadotóxicas
Diversos fatores ambientais e ocupacionais são capazes de ter uma ação tóxica direta sobre as gônadas e sobre o eixo hipotálamo- hipofisário 6 :
- Pesticidas: dibromocloropropano, ácido diclorofenoxiacético.
- Metais pesados: chumbo, cádmio, mercúrio, cromo e alumínio.
- Solventes: éteres de etinilenoglicol, estireno, percloroetileno, dissulfeto de carbono e tolueno.
- Agentes químicos: o calor excessivo pode levar a degeneração do epitélio seminífero
- Radiação: a exposição crônica leva ao aumento do FSH e LH com prejuízo para as células germinativas.
- Radioterapia: doses para o homem acima de 150 CGY podem levar a destruição definitiva das espematogônias e doses acima de 20 CGY para as mulheres podem levar a falência ovariana.
- Agentes quimioterápicos
Conclusão:
O progressivo declínio da fecundidade com o avanço da idade é uma realidade, devido não só à diminuição quantitativa e qualitativa dos oócitos, como também ao aumento na incidência de erros meióticos e aneuploidias dos gametas e embriões, reduzindo as taxas de gravidez com o processo de envelhecimento. Muitos estudos demonstram a influencia negativa de alguns fatores ambientais e comportamentais sobre o potencial de fertilidade conjugal.
Campanhas de esclarecimento devem ser estimuladas, com o objetivo de alertar os casais a respeito dos fatores aqui discutidos que interferem com a saúde reprodutiva, as formas de prevenção e informações sobre as técnicas de criopreservação dos gametas antes do uso de radio e quimioterapia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
- Pal L, Santoro N. Age-related decline in fertility. Endoc.Metab.Cl. North Am.2003 sep;32(3):609-88
- Tiezte C. Reproductive span and rate of reproduction among Hutterite woman. Fertil Steril 1957;8:89-97.
- Lindsay K. Risks of smoking to reproductive health: Assessment of women`s knowledge.Am J Obst Gynecol 2001;84:
- Martini AC. Effects of alcohol and cigarrette consumption on human semianl quality. Fert Steril 2004 aug;82(2):374-7
- Wang JX, Davies M, Norman RJ. Body mass and probability of pregnancy during assisted reproduction treatment: retrospective study. BMJ 2000;321:1320-1321.
- Parente CB, Haik GB et al. Fatores de risco ambientais e ocupacionais para a saúde reprodutiva masculina. FEMINA: Revista da federação brasileira da sociedade de ginecologia e obstetrícia 2002;30:465-469.

